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O Poder da Fala

O suor diz: – estou cansado.
A saliva diz: – estou com fome.
O tremor diz: – estou com medo.
O fechar de olhos diz: – me beije.

O astros dizem: – estamos dançando.
A água diz: – não sou azul.
O fogo diz: – não chegue perto.
A terra diz: – eu te seguro.

O ponteiro diz: – não posso parar.
Os passos dizem um ao outro: – você primeiro.
O travesseiro diz: – não se mexa.
A comida diz: – estou esfriando.

O caixão diz: – daqui você não sai.
E o útero: – saia logo.
O ninho: – bata asas.
Então, é preciso dizer algo?

08/07/09

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Acordei como a tristeza em mim.
E, pesado, vaguei o dia todo.
A súplica muda pediu para sair
E convocou meu ânimo como morto.

Ameaçadores meus olhos estavam.
Avermelhados e prontos…e prontos…
Mas não iam… e hesitavam… e hesitavam…
A reza ecoar saída em meio a escombros.

Me cansando, me preparo e desejo sorte.
Mas de nada adianta para o que está por vir.
Pois, antes sequer da quarta estrofe
Soltei tudo e sozinho comecei a sorrir.

19/06/09

É preciso a depressão para existir a crista da onda.

O Vizinho da sua Vida

O vizinho da sua vida.

De porta em porta, um rio nos separava.
Mas do que importa se o tempo não nos agrada?
Espero pela sorte de abrirmos junto portas.
Me porto solitário a tua espera. A espera nossa.

De dentro ouço seus pés e bater porta.
Me comporto como ouvido e, pelo som, quase que roça.
Ah quem me dera, de meu porto, eu só te olhar e dar “bom dia”.
E, a partir daí, ter porta em  sincronia ao da vizinha!

Ao lado, perto, está fechada em si mesma.
E como parto sabendo de sua ausência?
No corredor ainda espero parte nesta história.
Pra, quem sabe, em harmonia, termos isso na memória.

Talvez poucos tenham entendido algo desta escrita.
Que não há porta, há metáfora desse “eu”
Pois, quando quis ser o visitante de sua vida,
Toquei a campainha e você não atendeu.

15/06/09

Por: Paulo Ubermensch

Às vezes é pedir muito ter a mesma porta.
Pois, para isso, é preciso, primeiro, ter a mesma janela.
Que entre a luz.

O Rio

Às vezes temos um rio a nossa frente
E, imaginando-o uma dificuldade, nos desculpamos.
Não atravessamos e somos na mesma margem sempre.
Mas possibilidades de estar em outra especulamos.

Às vezes temos uma ponte à nossa frente.
E, visando a margem pós rio, nós dizemos.
– Já havia pensado. – E nos perguntam de repente:
– Vai atravessá-lo, então? – Assim, respondemos:

– Não. Ainda é a mesma distância.

Por: Paulo Ubermensch

08/06/09

Ficará para trás nesta travessia?

O corpo do vento

Invisível, eu não vi.
Mas impossível era
Não ver que estava ali.

Ainda através da dança,
que não posso ver,
Atravessa-me como num samba.

E, como o campo de centeio,
Era reformada, guiada,
Por este vento de vida cheio.

Assim, quando soou e veio,
Vi em ti o corpo deste vento:
Os dançarinos fios de teu cabelo.

Por: Paulo Ubermensch

08/06/09

O vento te leva como dente-de-leão.

A folga de Atlas

Foi-se ela, mas eu não.
Alçou vôo, mas eu não.
Ainda terra piso, ela não.
E, lá, meu amigo, eu não fui.

Nela pousa a culpa.
E céus são o que carrego.
Neles, ela está.
E, Deus, sim, são pesados!

Não há fôlego, só ombros.
E tal aceito punição.
Mente pouca, quase escombros.
Nego de Deus a redenção.

Sou menor, sou diminuto.
Não obtuso, mas agudo.
Quase me fecho em som mudo.
Assim me entrego ao absurdo.

O vazio me corrói,
Quase nada, quase morto.
Do contrário, diakonoi.
Com este peso, sou só corpo…

vazio

29/05/09

Por: Paulo Ubermensch

O Sadomazoquista

Quantas pessoas que conhecemos
pediram por dó uma vez na vida?
Quantas destas diluiriam-se de segredo
à mais nua vergonha por vida?

Mas é preciso pedir! Implorar!
O pedido do fraco não é barato.
E, quando o ouvir e aceitar,
Vide o grato mísero ser salvado!

O valor de tal moeda não é senão
ignorância a ambos os dois.
Pois, sentindo o bem de agora, pensarão
– Faço o melhor e sorte a este que se foi.

Priva-lhe a dor e pensa que
com isso lhe da toda a benção.
Mas, na pele lisa, fenda que
Virá, feri fácil tal tensão.

Por isso, venha e, curto, corte!
Rasgue, morda e torça a mim
até o quanto eu suporte!

Bata e fira em fúria!
Mostre o quão sou forte.
Não me prive e prove que a vida não é só isso!

Ilusão, dó, fraqueza e morte.

Por isso, basta!
E fira forte!
Pois, logo…
cicatriz.

Por: Paulo Ubermensch

17/05/09

Às vezes temos de ir para quase morrer.
Mas ir.