Feeds:
Posts
Comentários

Archive for the ‘A Gota’ Category

A Gota

Naufrago 03

 

A Gota
As ondas pıem em sua crista e depress„o uma nau perdida.
N„o que n„o se movimente, mas n„o h· mais remos para remar.
E pouco a pouco, vai preenchendo o vazio desta nau.
Mas ela n„o se enche de fora, se enche de dentro e sem remos…
O compasso do mar n„o marca tempo algum nesta embarcaÁ„o,
O fim j· lhe acometeu e n„o ser„o ‚ncoras que o atrasar„o.
E pouco a pouco, gota a gota vai preenchendo o vazio desta nau.
Mas ela n„o se enche de fora, se enche de dentro e sem remos…
As aves acima marcam seu perÌmetro na carne que j· È desfrutada.
Desfrutada das prÛprias unhas, que assam ao calor escaldante do sol.
E pouco a pouco, gota a gota, gemido a gemido vai preenchendo o vazio desta nau.
Mas ela n„o se enche de fora, se enche de dentro e sem remos…
A superfÌcie plana n„o permite tal nau se esconder sob o azul.
Vela e mastro j· jaziram a tempos demais para olhar acima e rezar.
E pouco a pouco, gota a gota, gemido a gemido, grito a grito vai preenchendo o vazio desta nau.
Mas ela n„o se enche de fora, se enche de dentro e sem remos…
A sede e a fome invocam a morte, mas ela ainda assiste ao espet·culo.
Espera a espreita atÈ de seu ˙ltimo suspiro pra poder o levar e dizer: – Calma, acabou…
E pouco a pouco, gota a gota, gemido a gemido, grito a grito, reza a reza vai preenchendo o vazio desta nau.
Mas ela n„o se enche de fora, se enche de dentro e sem remos…
A doenÁa È a ˙nica a abraÁar nesta solid„o e, enxergado o prÛximo destino, tremia…
Tanto que negava a forÁa das ondas e, em seu tempo – sua ˙nica coisa -, morria. 
E pouco a pouco, gota a gota, gemido a gemido, grito a grito, reza a reza, espasmos a espasmos v„o preenchendo o vazio desta nau.
Mas ela n„o se enche de fora, se enche de dentro e sem remos..
A nau se preencheu da ·gua salgada e, no silÍncio, o caix„o permitiu-se afundar sob o azul.
Enquanto as ˙ltimas bolhas de vida do corpo se esvaiam e fugiam para gemer, gritar, rezar, tremer…
A nau ia se esvaziando de tal vida e tal foi ao fim sua sina.
Neste cemitÈrio perfeito que, para todas as vidas que se v„o, j· est„o numa gota da l·grima de Deus.
Mas, para esta gota, n„o h· lenÁo.
13/02/09
Por: Paulo Ubermensch

 

As ondas põem em sua crista e depressão uma nau perdida.

Não que não se movimente, mas não há mais remos para remar.

E, pouco a pouco, vai preenchendo o vazio desta nau.

Mas ela não se enche de fora, se enche de dentro e sem remos…

 

O compasso do mar não marca tempo algum nesta embarcação,

O fim já lhe acometeu e não serão âncoras que o atrasarão.

E, pouco a pouco, gota a gota vai preenchendo o vazio desta nau.

Mas ela não se enche de fora, se enche de dentro e sem remos…

 

As aves acima marcam seu perímetro na carne que já é desfrutada.

Desfrutada das próprias unhas, que assam ao calor escaldante do sol.

E, pouco a pouco, gota a gota, gemido a gemido vai preenchendo o vazio desta nau.

Mas ela não se enche de fora, se enche de dentro e sem remos…

 

A superfície plana não permite tal nau se esconder sob o azul.

Vela e mastro já jaziram a tempos demais para olhar acima e rezar.

E, pouco a pouco, gota a gota, gemido a gemido, grito a grito vai preenchendo o vazio desta nau.

Mas ela não se enche de fora, se enche de dentro e sem remos…

 

A sede e a fome invocam a morte, mas ela ainda assiste ao espetáculo.

Espera a espreita até de seu último suspiro pra poder o levar e dizer: – Calma, acabou…

E, pouco a pouco, gota a gota, gemido a gemido, grito a grito, reza a reza vai preenchendo o vazio desta nau.

Mas ela não se enche de fora, se enche de dentro e sem remos…

 

A doença é a única a abraçar nesta solidão e, enxergado o próximo destino, tremia…

Tanto que negava a força das ondas e, em seu tempo – sua única coisa -, morria. 

E, pouco a pouco, gota a gota, gemido a gemido, grito a grito, reza a reza, espasmos a espasmos vão preenchendo o vazio desta nau.

Mas ela não se enche de fora, se enche de dentro e sem remos..

 

A nau se preencheu da água salgada e, no silêncio, o caixão permitiu-se afundar sob o azul.

Enquanto as últimas bolhas de vida do corpo se esvaiam e fugiam para gemer, gritar, rezar, tremer…

A nau ia se esvaziando de tal vida e tal foi ao fim sua sina.

Neste cemitério perfeito que, para todas as vidas que se vão, já estão numa gota da lágrima de Deus.

 

Mas, para esta gota, não há lenço.

 

13/02/09

 

Por: Paulo Ubermensch

(Métrica e símbolos progressivos. Ênfase pela repetição de versos. Sem rimas. )

Read Full Post »