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Archive for the ‘A Coração’ Category

dancarina-saltando

A Coração

Eu sou um poeta. Disso, nunca tive dúvida.
Mas, sou um poeta que odeia a palavra.
A palavra, que é a matéria de um universo
Que tenta, em vão, transpor outro:
O do pensamento, o do sentimento et cetera.

Algumas palavras parecem confundir a gente.
Por exemplo, quando eu gosto,
Por vezes, me apaixono, e, logo, estou amando.
Parece sempre ser nessa progressão.
Às vezes, se desvia para a adoração ou obsessão possessiva.
Mas, caminha linearmente.

E acho engraçado no fato de, por vezes, um poeta ficar mudo.
Sem palavra. Não achar uma rima; Uma saída.
É a incongruência da palavra ou finitude dessa progressão
A causa da mudez de um poeta?

Pois,
Depois de amar: amo demais.
Depois de amar demais: amo muito
Depois de amar muito: amo muitíssimo.
Mas, talvez, “amor” devesse ser a máxima.
Porém, não o sinto assim.

Cada palavra deveria corresponder a seu peso, tamanho, extensão.
Mas, meu coração bombeia o sangue de um sentimento,
que nem por qualidade ou quantidade da palavra posso exprimir.

Sinto uma pressão forte.
Sinto as veias não aguentarem tamanha coisa.
Que o ar me entra falho, e sai em igual sem som.
Acho que chego ao estágio animal.

Não consigo codificar,
Talvez me falte contexto, me falte matéria-prima. Não sei.
Mas, algo me falta, disso, nunca tive dúvida.
Assim, chego ao desejo, à libido, à energia da vida.
Que no silêncio expulsa essa sensação.
Meu sentimento, ao qual não tenho palavra.
Não tenho tom; volume; som.

É como uma cor nova,
que não tem como base cores primárias.
Fosse feita, apenas, com o movimento do pincel.
é a Cor-ação.

Pois, foi feita de um pintor cego.
Que sente a cor dentro de si, não a palavra.
Mas, só conhece o comunicar da ação.
A comunicAção.
Pois, a palavra “cor” não lhe diz nada.
Não a ouve.

É, como um poeta mudo, um pintor cego,
Suas artes são transcendidas pela suas almas.
A alma livre; a alma interligada; A alma de um coração.
Tais almas, são como a de um músico surdo.
Que imagina os acordes na mente,
Algo nada abstrato que talvez nem seja som que imagine.
Mas, de seus dedos podem saí-lo, de seu sopro, de sua ação.

A vibrAção vem de seu âmago,
e dele nem pensaria em colocar o título de uma música em palavras.
Ou simples palavras para serem objeto de algum intelecto,
e pararem nessa muralha da razão.
Mas, sim, de serem levados ao tocante do ser.
Até, por palavras, mas como uma melodia.

Eu imagino um dançarino de cadeira de rodas
Ele se move: para frente, para trás, gira…
Mas… Aonde se encontra a verdadeira dança?
Aonde a graça é nítida até a um cego?
É aonde os passos não são passos de verdade,
Mas, as passagens, que dá, são de comover o espetacular.

Nossa mente seria como um lago, que ao tocante de um extremo
Se comunica com o todo através de ondas
E, com as palavras, as ondas se limitariam ao cerco do significado?
A idéia pura viria antes do falar? Depois da sensação?
Já me toma o corpo sem tempo e, para além do espaço, meu íntimo.

Algo se manifesta, se faísca na mente por alguns milésimos de segundo.
Reverbera-me como um acorde, e na memória o posso sentí-lo novamente
No limite do ser, dado que faço parte de um corpo limitado,
e não que meu corpo limitado faça parte de um ser ilimitado.

Mas, não importa, talvez nunca o saiba.
O importante é que nessa dança eu não lhe posso pisar o pé
Que nessa música não lhe possa desafinar,
E falhar o tempo para o músico e o dançarino,
Assim, finalmente, pincelar as cores da imaginAção.

Pois, desse ciclo soberbo a verdadeira arte é feita,
A estrofe Haikai se completa,
Em uma frase sem as “vírgulas” da abstração, de palavras,
Algo me atravessa, demasiadamente amiude, como o logos de Haráclito,
Que penso ser eu próprio.
E não sei se a arte me faz lembrar que estou vivo,
Ou se é ela que me faz viver.

Que, até, quando, seus braços me abraçam,
Os perceba como arcos de violino, vibrando-me as cordas, as notas do Ser.

Paulo Ubermensch 23/10/08

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