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Archive for junho \14\UTC 2009

A Gota

Naufrago 03

 

A Gota
As ondas pıem em sua crista e depress„o uma nau perdida.
N„o que n„o se movimente, mas n„o h· mais remos para remar.
E pouco a pouco, vai preenchendo o vazio desta nau.
Mas ela n„o se enche de fora, se enche de dentro e sem remos…
O compasso do mar n„o marca tempo algum nesta embarcaÁ„o,
O fim j· lhe acometeu e n„o ser„o ‚ncoras que o atrasar„o.
E pouco a pouco, gota a gota vai preenchendo o vazio desta nau.
Mas ela n„o se enche de fora, se enche de dentro e sem remos…
As aves acima marcam seu perÌmetro na carne que j· È desfrutada.
Desfrutada das prÛprias unhas, que assam ao calor escaldante do sol.
E pouco a pouco, gota a gota, gemido a gemido vai preenchendo o vazio desta nau.
Mas ela n„o se enche de fora, se enche de dentro e sem remos…
A superfÌcie plana n„o permite tal nau se esconder sob o azul.
Vela e mastro j· jaziram a tempos demais para olhar acima e rezar.
E pouco a pouco, gota a gota, gemido a gemido, grito a grito vai preenchendo o vazio desta nau.
Mas ela n„o se enche de fora, se enche de dentro e sem remos…
A sede e a fome invocam a morte, mas ela ainda assiste ao espet·culo.
Espera a espreita atÈ de seu ˙ltimo suspiro pra poder o levar e dizer: – Calma, acabou…
E pouco a pouco, gota a gota, gemido a gemido, grito a grito, reza a reza vai preenchendo o vazio desta nau.
Mas ela n„o se enche de fora, se enche de dentro e sem remos…
A doenÁa È a ˙nica a abraÁar nesta solid„o e, enxergado o prÛximo destino, tremia…
Tanto que negava a forÁa das ondas e, em seu tempo – sua ˙nica coisa -, morria. 
E pouco a pouco, gota a gota, gemido a gemido, grito a grito, reza a reza, espasmos a espasmos v„o preenchendo o vazio desta nau.
Mas ela n„o se enche de fora, se enche de dentro e sem remos..
A nau se preencheu da ·gua salgada e, no silÍncio, o caix„o permitiu-se afundar sob o azul.
Enquanto as ˙ltimas bolhas de vida do corpo se esvaiam e fugiam para gemer, gritar, rezar, tremer…
A nau ia se esvaziando de tal vida e tal foi ao fim sua sina.
Neste cemitÈrio perfeito que, para todas as vidas que se v„o, j· est„o numa gota da l·grima de Deus.
Mas, para esta gota, n„o h· lenÁo.
13/02/09
Por: Paulo Ubermensch

 

As ondas põem em sua crista e depressão uma nau perdida.

Não que não se movimente, mas não há mais remos para remar.

E, pouco a pouco, vai preenchendo o vazio desta nau.

Mas ela não se enche de fora, se enche de dentro e sem remos…

 

O compasso do mar não marca tempo algum nesta embarcação,

O fim já lhe acometeu e não serão âncoras que o atrasarão.

E, pouco a pouco, gota a gota vai preenchendo o vazio desta nau.

Mas ela não se enche de fora, se enche de dentro e sem remos…

 

As aves acima marcam seu perímetro na carne que já é desfrutada.

Desfrutada das próprias unhas, que assam ao calor escaldante do sol.

E, pouco a pouco, gota a gota, gemido a gemido vai preenchendo o vazio desta nau.

Mas ela não se enche de fora, se enche de dentro e sem remos…

 

A superfície plana não permite tal nau se esconder sob o azul.

Vela e mastro já jaziram a tempos demais para olhar acima e rezar.

E, pouco a pouco, gota a gota, gemido a gemido, grito a grito vai preenchendo o vazio desta nau.

Mas ela não se enche de fora, se enche de dentro e sem remos…

 

A sede e a fome invocam a morte, mas ela ainda assiste ao espetáculo.

Espera a espreita até de seu último suspiro pra poder o levar e dizer: – Calma, acabou…

E, pouco a pouco, gota a gota, gemido a gemido, grito a grito, reza a reza vai preenchendo o vazio desta nau.

Mas ela não se enche de fora, se enche de dentro e sem remos…

 

A doença é a única a abraçar nesta solidão e, enxergado o próximo destino, tremia…

Tanto que negava a força das ondas e, em seu tempo – sua única coisa -, morria. 

E, pouco a pouco, gota a gota, gemido a gemido, grito a grito, reza a reza, espasmos a espasmos vão preenchendo o vazio desta nau.

Mas ela não se enche de fora, se enche de dentro e sem remos..

 

A nau se preencheu da água salgada e, no silêncio, o caixão permitiu-se afundar sob o azul.

Enquanto as últimas bolhas de vida do corpo se esvaiam e fugiam para gemer, gritar, rezar, tremer…

A nau ia se esvaziando de tal vida e tal foi ao fim sua sina.

Neste cemitério perfeito que, para todas as vidas que se vão, já estão numa gota da lágrima de Deus.

 

Mas, para esta gota, não há lenço.

 

13/02/09

 

Por: Paulo Ubermensch

(Métrica e símbolos progressivos. Ênfase pela repetição de versos. Sem rimas. )

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Um homem nu corre em ângulo reto à chuva.
Seus passos se chocam pesadamente e,
Como as gotas, elevam a água para cair de novo.
Seus passos não são registrados, 
A água sequer consegue segurá-lo,
E este homem não existe.
As gotículas delineam as curvas de seus músculos
E pouco se prende a selvageria de seu longo cabelo.
Ele aumenta e diminui sua velocidade com total naturalidade,
Como o faz o vento quente e o frio,
Como o faz o humor…
E este homem não existe.
Nenhuma água nos olhos é areia para atrasá-lo de seu destino.
Mesmo um novo horizonte se formando a cada curva,
Ele o segue do modo que o fosse vida,
O único sentido.
E, para todos os lados,
Este homem não existe.
Na cidade e além havia seu sexo amostra.
Seu perfume dançava entre a chuva
E penetrava os sentidos dos seres.
Noite e Dia se formavam numa luta a assisti-lo,
Mas na claridade ou escuridão,
Este homem não existe.
Sobre o mar correu e cortou as ondas que enfrentava
E, no vasto invisível azul que o circundava, levantou vôo.
A chuva ainda o apanhava e, visando sempre o horizonte,
Se iluminou ao vertical e ascendeu aos céus.
Parecia impossível, mas foi para além das nuvens.
E este homem não existe…
Agora ele atravessa de céu à terra
E da terra ao céu.
Ecoando sua voz e a luz da nova velocidade,
Como o raio.
09/02/09
Paulo Ubermensch 
(Tema: Um homem que mudou o modo de pensar, método. O mito da criação do raio. 6 versos e 4 na conclusão. Sem rima ou métrica. Apenas conteúdo.)

 

Mudando a forma de pensar e agir.

 

Um homem nu corre em ângulo reto à chuva.

Seus passos se chocam pesadamente e,

Como as gotas, elevam a água para cair de novo.

Seus passos não são registrados, 

A água sequer consegue segurá-lo,

E este homem não existe.

 

As gotículas delineam as curvas de seus músculos

E pouco se prende a selvageria de seu longo cabelo.

Ele aumenta e diminui sua velocidade com total naturalidade,

Como o faz o vento quente e o frio,

Como o faz o humor…

E este homem não existe.

 

Nenhuma água nos olhos é areia para atrasá-lo de seu destino.

Mesmo um novo horizonte se formando a cada curva,

Ele o segue do modo que o fosse vida,

O único sentido.

E, para todos os lados,

Este homem não existe.

 

Na cidade e além havia seu sexo amostra.

Seu perfume dançava entre a chuva

E penetrava os sentidos dos seres.

Noite e Dia se formavam numa luta a assisti-lo,

Mas na claridade ou escuridão,

Este homem não existe.

 

Sobre o mar correu e cortou as ondas que enfrentava

E, no vasto invisível azul que o circundava, levantou vôo.

A chuva ainda o apanhava e, visando sempre o horizonte,

Se iluminou ao vertical e ascendeu aos céus.

Parecia impossível, mas foi para além das nuvens.

E este homem não existe…

 

Agora ele atravessa de céu à terra

E da terra ao céu.

Ecoando sua voz e a luz da nova velocidade,

Como o raio.

 

09/02/09

Paulo Ubermensch 

(Tema: Um homem que mudou o modo de pensar, método. O mito da criação do raio. 6 versos e 4 na conclusão. Sem rima ou métrica. Apenas conteúdo.)

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Lança chamas

 

Em algum lugar, numa terra muito distante

Se encontra uma terra de essência penetrante.

Terra, esta, vazia, só planícies e sem montes.

Terra sem árvores, plana até todo o horizonte.

 

Mas, por menos que visse, sentia uma semente

Abaixo da terra, negro petróleo de repente.

Não podia tocá-la, sem antes perder a mente.

E ser o negro petróleo que não tinha frio, nem era quente.

 

Nesta terra, vasta de areia, vejo que são cinzas.

Algo foi queimado ou está queimando ainda?

Apenas, cá, estou sob a opacidade da paisagem.

E qualquer juízo não é ser, nas cinzas, miragem.

 

Há uma gravidade que traga e a força, cá, é movimento.

A árvore cresceu e vi apenas planitude, mesmo não querendo.

Mas não sentia mais semente, tomava forma e era agora raíz.

Tamanha proporção nesta terra que proclamava ser país.

 

Penetrava fundo na terra e, até, seus horizontes.

Eu não a via, mas a sentia forte, já, de longe.

Um buraco negro em ascenção que só sentia, tremia,

Engolia a terra cinza, em gula, ia… e assim ia…

 

Há tempos que continua e, ainda, me lembro de quando quis chorar.

Foi tão certo quanto as gotas da chuva, mas não caiu da terra a estalar.

Um oceano se formou nos meus olhos e, por novas lentes, enxerguei o óbvio.

Nas cinzas, uma semente que virou raíz, que não via, só sentia e, ainda, engolia era, pois, o ódio…

 

Era, pois, o ódio..

Era, pois, e, não outra coisa, a não ser, 

O ÓDIO.

 

04/02/09

 

Por: Paulo Ubermensch

 

(Rimas simulam o som do fogo em estalos e da queima constante.

Teor de rancor, morto, dolorido.)

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Anjo
Em alguns dias, nosso lar não está receptivo.
Em alguns dias, nos sentimos expulsos de nossa ostra.
Em alguns dias…
Assim, queremos sair, andar um pouco,
Aproveitar da liberdade,
Se puder, até, desejaríamos voar.
E, quem sabe, nós encontremos asas neste caminho.
Mas penso ser mais difícil esta sina.
Pelo menos na maioria, o digo por experiência.
Por isso, desejo apenas caminhar.
E as surpresas que virão, serão surpresas ainda.
E poderei sorrir quando chegarem.
Mas opto por falta de opção.
Sigo a maré a esmo.
Do mesmo modo que sem bussola ainda digo “A Nordeste!”
E, lá, apareço e desapareço como a sombra de um beija-flor.
Assim, percebo na diferença do “cá” com “lá” 
Que erramos e fazemos coisas certas em ambos os lugares.
Só que o erro é uma negritude que nos percebe.
Ele está em nós e, quando não, se estica aos outros.
Podemos nos iluminar a tal ponto a não ter sombras?
Estamos preparados para esta primeira faísca?
Mas eu vos digo: “Não se preocupe.
Ninguém está.”
E ninguém mesmo.
Anjos e demônios cercam uma cabeça ociosa.
Eles se criam na velocidade em que nascemos,
Indefinidamente, como quando não temos noção do tempo.
Os mundos externos, na mente, têm asas e não têm nos esperando.
Depende da mais leve pena que pousa no lugar certo ou errado.
E somos nós que a pousamos.
Podemos soprá-la longe ou a segurar forte entre os dedos como parte de nós mesmo.
Mas… ousaremos?
De fato, não hão respostas, não hão buscas por saberes.
Porque, sequer, existem perguntas.
Já que nada é certo no mundo ao qual não estamos preparados para viver.
Ou seja, parece que nada mudou.
Subo a montanha para descer do outro lado de seu pé.
Mas esta é a “vida”, não é?
Vestir a roupa invisÌvel do rei e dizer: “estou pronto para isto”.
Mas a liberdade nos permite e chamar de belo ou atroz são outras coisas.
No entanto, só lhe dou um aviso: veja a nudez.
Enxergue-a e não sinta vergonha.
Pois, isso é que nos dá a identidade humana.
Em alguns dias, nosso lar pode não ser mais lar.
As pessoas em que confiamos podem dizer algo que nos distorce a mente.
Ou, pior em certos casos, nada dizer.
Desta maneira, a história humana aconselha a sermos detalhistas.
Podemos carregar o passado ou nos guiar para o futuro.
Porém, o pressuposto é ter os sentidos no presente.
Presente destas palavras que não são de ninguém.
Ninguém, este, que nunca esteve preparado para a vida.
Mas tem, na disposição, uma vontade por viver suas partes no modo como lhe pode.
Porque, para ninguém, é o que lhe é possível.
Segurar as mãos de (outro)ninguém, beijar (outro) ninguém.
Pois, no fim, ainda, pode haver asas no futuro.
E, em alguns dias, será “hoje” e poderei voar,
como em quando desejei sair de minha ostra.
28/01/09
Por: Paulo Ubermensch
(Poesia livre com ênfase no sentido, símbolo e na particularidade do pensamento)

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